sexta-feira, 27 de julho de 2012

Beijada por um anjo

- Sério amiga, eu vi. De novo!
- Carla, foi um sonho! Foi bom? Foi, mas foi um sonho, não deixa isso afetar sua vida.
- Ele é minha vida! Você não entende, não é mesmo?
- Claro que entendo, já terminei vários namoros, já sofri e sonhei com eles inúmeras vezes. Acontece com todo mundo.
- Ta Anita, ta bom. Você ta certa. Tenho que ir, ta na hora da minha caminhada. Beijo.
- Ta bom gata, beijo. Juízo em!

 Carla não respondeu. Ela sabia que prolongar aquela conversa só ia deixá-la com mais certeza que ninguém a entenderia.
 E lá foi ela, em sua caminhada. Na verdade, corrida. Carla corria, corria pra fugir dos problemas, dos medos, dos pensamentos. Só admirava a paisagem.
Seus pés já a guiavam automaticamente, todo dia era o mesmo caminho, ela corria na orla da praia e parava no playground, o mesmo trajeto de cinco anos atrás, que ele a chamou pra correr com ela por causa de sua saúde, que estava em risco. E acabou se tornando uma rotina, um prazer para os dois, uma forma de descontrair. O playground era bem conservado, eles reformavam todos os anos. Adultos iam lá também, por ser um lugar bonito, aconchegador. Famílias se reuniam lá, para fazer piquenique no gramado enquanto as crianças brincavam no parquinho.Carla se direcionou ao chafariz no gramado, de águas claras, lavou seu rosto, se direcionou ao parquinho, e sentou no balanço embaixo da laranjeira, onde eles sempre ficavam. Só então Carla chorou.
 E foi aí que sentiu a presença dele. Como um manto que a cobria, ela sentiu seu corpo ser aquecido, e não evitou o arrepio. Ele estava ali com ela, ela sabia. Ela sentia.

- Ei bebê, eu sei que você ta aqui. Foi você de noite, não foi? Foi mais do que um sonho, ne? Você com aquele sorriso lindo seu, aquele jeitinho todo meu, falou que me amava, que tava bem, e que me esperava. Eu chorei, você secou minhas lágrimas e me beijou. Nosso beijo. Nosso abraço. Diz que foi você meu amor...

 Sua voz quase não saiu, tomada pela emoção. Sentiu uma brisa fria e uma flor da laranjeira caiu em seu colo. O aroma da flor a acalmou. Carla cheirou a delicada flor branca e não pode evitar o sorriso. Prendeu a flor no cabelo. E, de repente, a voz dele ecoou em sua mente:

- Não canso de dizer como você fica mais linda ainda com essa flor no cabelo!

 Carla sentiu sua pele morena corar e sentiu um arrepio na espinha. Abriu um largo sorriso. O sorriso que era exclusivo dele. Então se permitiu relaxar no balanço, como se estivesse encostada no seu Gustavo.

- Eu sabia que era você Guga. Eu sabia que a Anita nunca iria me entender. Ah, meu bem, já tem quase um ano, eu sinto tanto a sua falta.

 As lágrimas corriam em sua face, mas ela tava bem. Sabia que ele tava ali, com ela. Quando parou de chorar, se recompôs e foi para casa.
Tomou um banho gelado, lavou o cabelo, pôs o moletom dele, como de costume, pôs sua pantufa com cara de ursinho, preparou um chocolate quente, pegou o álbum de fotos que ele fazia sem deixar ela ver, sentou na sua poltrona vermelha confortável, respirou fundo e o abriu.
 O álbum já estava meio empoeirado, mas ela o abriu mesmo assim, já estava na hora de reviver as lembranças.
 As fotos deles eram lindas, diferentes, dignas de elogios, e Carla teve que sorrir em meio às lágrimas quando viu a foto que ele a estava virando de cabeça pra baixo.
 Eram mais de 200 fotos, fora as que estavam espalhadas pelo quarto deles e as que estavam na caixa de lembranças dele que ela guardava.
 Na última folha, ela viu uma carta, uma carta. Surpresa, Carla começou a ler:

"Ei minha princesa, eu te amo ta?! Sei que não sou perfeito, nem nunca te deixei ver esse álbum. Eu queria que fosse surpresa, num dia especial.
 Não sei porque, mas depois daquele sonho em que eu morria, resolvi tomar uma atitude: congelei espermas e deixei em seu nome. Sei que é seu sonho ter filho e, se eu realmente morrer, vai ser uma forma de você se sentir comigo. Vou te ajudar a criá-lo, não preciso estar em corpo e sangue para exercer tal função, afinal, sou teu anjo, certo?
 Sei que parece meio surreal, mas no meu sonho, Maria disse assim: 'Sei que você não quer partir, mas você vai poder sempre se comunicar. Não necessariamente por conversa, mas por sinais, sonhos, etc. A jornada vai ser difícil? Vai, mas nada que seja impossível para duas almas gêmeas. Nós aqui os abençoamos e estamos com vocês dois. Abençoado seja, meu filho!'
 Ela tava linda bebê, com aquele manto azul que você sonhou uma vez, e reluzindo muito. Você ia adorar vê-la.
 Então meu bem, fica tranquila, tá?! Acredita no Poder de Deus, eu tô sempre contigo.
 Se quiser, é só apresentar seus documentos lá. Te amo, fica bem.
 Ei, não chora não! Por favor. TE AMO MEU BEBÊ!"

 Carla enxugou as lágrimas. Sorriu. Foi dormir. Sonhou com dois filhos, e uma presença. Uma presença de anjo. Seu anjo. E chorou, dormindo mesmo, e deu um sorriso de ladinho. Ela já sentia o que deveria fazer.

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