segunda-feira, 19 de março de 2012


 Era o amanhecer de um novo dia. Aquele amanhecer lindo e frio do começo da primavera. Mas Alice já estava acordada. Há muito tempo. E não tava encontrando a beleza na paisagem que ela sempre admirava. Era domingo, ela olhou as horas no seu relógio de pulso. O relógio que ele a tinha dado. Como era lindo! Era de prata, com fios de ouro. Charmoso, discreto e delicado. Alice deu um meio sorriso, que foi substituído por lagrimas nos olhos.
- NÃO! - ela disse para si mesma. – Não vou chorar. Eu o prometi que iria honrá-lo e que tentaria ao máximo não sofrer.
 Mas era tão difícil. Ela sentia tanta falta dele. Terminou de se arrumar, pôs seu casaco de algodão roxo. O mesmo que sempre o fazia comentar: “Esse casaco é chamativo demais pra você minha filha. Contrasta muito com sua pele. Você é muito branca.” e ela sempre respondia: “Oras, quem é você, um coroa que não sabe nada de moda.” e ele sempre resmungava. Mas ele era um coroa charmoso, que entendia, sim, de moda. Mas ela não ligava, gostava das risadas que esse comentário os faziam dar. E, lembrando disso, ela sorriu. Sorriu como só sorri quando lembra dele. Como se fosse vê-lo no final do dia.
Eles quase nunca discutiam. Como a mãe dela os abandonou quando Alice tinha seis meses, eles sempre foram amigos, companheiros. Um contava tudo pro outro, sem medo. Eles eram um pouco solitários, viviam só os dois, as pessoas não costumavam falar com eles, eram soberbas demais pra isso. Eles tinham alguns amigos verdadeiros, mas Alice os pediu um tempo para reorganizar a bagunça em sua mente e coração. Claro que eles não ouviam e vinham fazer umas visitas de vez em quando, trazendo cookies e tortas de limão, mas eles respeitavam bem os limites da menina Alice.
 Deixando um pouco de lado as lembranças, Alice terminou de ajeitar seu cabelo e olhou pro seu iPod. Não, ela não ia pegar ele hoje. Ela precisava estar atenta a tudo, ao clima, no caminho, na paisagem, nas lembranças. E quantas lembranças... saiu do seu quarto, pegou uma barra de cereal grande de chocolate – a preferida dele – e saiu na sua bicicleta, parando no caminho só pra pegar umas lavandas e colocá-las na cesta de palha trançada da bicicleta que os dois tinham trançados.
 O lugar estava do mesmo jeito desde a ultima vez que ela estivera ali. Já fazia um ano... ela estava tão entretida tentando se manter ocupada que por um breve momento esqueceu como ali era lindo! Os carvalhos estavam ali, com suas folhas verdes vivas se destacando no resto de neve. As lembranças ferviam em sua mente, trazendo flashes de momentos que eles já vivenciaram naquele lugar, ela rodava, como se estivesse vendo ela com cinco anos brincando e correndo para os braços dele, que a pegava no colo e a jogava pro alto, ambos gargalhando. Eles não precisavam de mais nada, tinham um ao outro, e isso era o que importava. Ela olhou para o tronco do maior carvalho, e reconheceu a escada colorida feita de pedaços retangulares de madeira que eles pintaram e pregaram ali. Ela achou impressionante o fato de estarem intactos. Tudo estava intacto ali. Era como se ela tivesse ido ontem naquele lugar, brincar e cantar e rir. Alice subiu aquelas tão conhecidas escadas e chegou naquela cabana de madeira. Ela linda demais para uma simples cabana por isso seu pai sempre chamava de “O castelo da princesa Alice.” Ela amava quando ele dizia isso. Havia uma mesa toda trabalhada que ele tinha feito para ela, e suas cadeiras no mesmo estilo. A bancada, o sofazinho, os brinquedos, as fotos, tudo ali, como se estivesse novo, como eles deixaram. Ela voltaria ali depois, mas agora precisa fazer o que foi fazer.
 Foi na sua bicicleta pegar o buque improvisado de lavandas. Ela sabia que ele não ligaria de ela ter as colhido na vinda, pois ele amava lavanda. Acreditava que elas purificavam qualquer lugar, qualquer pessoa. Fora que seu cheiro acalmava qualquer ser inquieto.
Foi do lado oposto ao tronco com as escadas. Ela viu aquela placa de mármore branca, com rosas esculpidas em suas bordas. Viu também a frase que ela mesmo havia esculpido: “Você vai ficar aqui, seu lugar preferido, e no meu coração, pra sempre. Te amo meu herói. Da sua pequena princesa.” Foi fácil esculpir as letras na placa que ele havia feito, ela aprendera com ele desde novinha a esculpir. A placa que ele havia feito para uma ocasião qualquer, mas que ela havia guardado para algo especial, tamanha beleza da pedra. E essa, de fato, era algo especial. Era onde ela viu seu pai pela ultima vez, e nunca se esqueceria disso. Mais abaixo da frase, as datas: “ * 16.07.1970 † 25.10.2010”. ela colocou a lavanda encostada na placa e, com os olhos cheio de lagrimas, passou as mãos por ela, chorando. Dessa vez não se impediu. Chorou. Chorou como criança, até não haver mais lagrimas para chorar. Se esgotou. Ela tinha esquecido de como chorar te dava sono. Seus olhos foram ficando pesados, ela piscava com força, mas não despertava. Sem perceber deitou ali, na frente da placa. E dormiu, sendo tranqüilizada pela lavanda, e com uma brisa carinhosa tocando-lhe o rosto, semelhante ao carinho que seu pai fazia nela antes de ela adormecer. E, depois de muito tempo, ela dormiu bem. E sonhou, sonhou com os dois brincando em um lindo prado, ela criança, ele jovem, como sempre. Para sempre.

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